terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Crer Para Ver

Ei John é lindo este crepúsculo que invade minha retina e incita a imaginação jogral dos belos amantes insaciáveis! Tudo é belo e colorido, suas mil cores me excitam, me encantam. Ta vendo aquele damasco vermelho ali? Eu imaginava. E aquele marmelo verde ali ó? Suspeitei também. Não te preocupes só eu o vejo, seria uma epifania se tu visses. É triste não?
Assim o vejo e sempre vi e verei também. Aquelas árvores no canto esquerdo do horizonte sempre foram verdes para ti. Eu nego! São marrons, algumas vermelhas, mas a maioria marrom como meus olhos verdes escuro. Minha invencionice é verossímil apesar de tua incredulidade berrante. Eu tenho um discrepar no olhar e isto me acomoda. Não preciso escolher os pares de meias, afinal, todas são verdes! Ou vermelhas se eu assim preferir. Minhas gravatas são todas azuis, lilás, roxas, róseas, um arco-íres monocromática o meu guarda-roupa, só você vendo. Tudo é mágico e emocionante, vejo assim e tudo me é exótico como normalmente é. Fico horas a fio procurando pequenos objetos, selos, escaravelhos, moedas inúteis, tudo extraviado pela casa só para perguntar ao meu amor se é assim mesmo que o vejo. Ela não ver.
O que foi? O meu descritivo não te convence? Ora meu caro não é para ver e sim para crer. Como posso eu pintar um quadro se não sei a cor do céu, do sol, do mato, do mar, da juba do rei leão ou das cores do peixe palhaço? É um crime tu me pedir isso! Sinto muito, mas o privilegio é só meu! Não faz sentido? Ora ora! O dia em que Frank brincou na varanda com o avô octogenário fazia um calor de matar passarinho. Por que o avô estava de meias e chinelos naquele dia? Tão exclusivo na aventura de atenção para si, já que as mulheres abandonam os velhos, em troca de um sentido de espelho. Isso sim não faz sentido!
Na continuidade dos dias, dos meses, dos anos, num dia em que a depressão se instalava em minha alma e num mesmo cenário de noite como esta agora mas sem chuva e sem frio, olhei o céu incrivelmente estrelado, comecei a olhar a imensidão do céu negro e pegando no cão ao meu colo, falei com ele, com esse ser tão desprovido pelas sortes e fortunas do mundo, e disse-lhe: queria te explicar a imensidão do que vejo, as estrelas que observando não toco e perceber o sentido de minha melancolia. Ele olhou para mim como se estivesse a entender a minha fala e o que lhe tentava a explicar; a imensidão de tudo, o sentido da vida, o porquê deste meu dia triste e o destino de nós humanos, dos cães que como eles ainda andam por aí. Tudo isso só porque naquele exato momento eu contemplava um céu negro com estrelas alvas como a neve e sabia que aquele mesmo céu estrelado não se diferenciava em cores para tu John.

Nenhum comentário: